Cristãos, da Vida Intransigente à Mundanidade

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O canal de TV por assinatura National Geographic já exibiu três documentários, em sequência, da série Jesus, Rise to Power (Jesus, A Ascensão ao Poder), porém traduzido como O Poder do Cristianismo. Desde alguns anos, os canais de documentários têm adotado a mesma estratégia de marketing do cinema de nem sempre traduzir literalmente o nome das produções, mas sim de denominá-las de acordo com um título que cause mais impacto no público de cada país. Este é mais um sinal de como os documentários, os quais no passado eram mais científicos e didáticos, estão se transformando, cada vez mais, em produções comerciais e de entretenimento. Quem assistiu os canais Discovery, Mundo e History Channel, ainda nos anos 1990, é capar de perceber a diferença.

            Bem, mas o objetivo desta crítica não é comentar sobre a qualidade das produções dos documentários, senão sobre um tema tratado neles, ou seja, o Cristianismo primitivo como um radical modo de vida e de oposição ao estilo de vida romano, o qual contrasta flagrantemente com o modo de vida dos cristãos atuais. Em outras palavras, o Cristianismo não era, naquela época, tal como hoje (exceto os clérigos), apenas uma aceitação de fé com quase nenhum compromisso prático com o modo de vida. Ele era sim, além da fé, um modo de vida radical, isto é, uma combinação rigorosa de fé e de modo de vida.

O exemplo mais claro que atesta este rigoroso e intransigente modo de vida dos primeiros cristão está na razão por eles terem sido perseguidos pelos romanos sendo que, tal como sabemos, estes últimos eram muito tolerantes com os diferentes cultos praticados no Império Romano. Então, qual o motivo para os romanos perseguirem os cristãos? Naquela época, a religião romana era um aglomerado de cultos estrangeiros, sendo assim, por que só os cristãos foram perseguidos? A resposta está no radical e inflexível modo de vida dos primeiros cristão, os quais não aceitavam dividir seu estilo de vida com a prática de culto e de sacrifícios aos deuses da religião romana, tal como os seguidores dos outros cultos do Império faziam. Sendo a religião romana uma religião civil, a recusa em praticar os cultos e os sacrifícios do seu calendário religioso era entendida como uma desobediência civil, portanto sujeita à punição pelo Estado. De modo que, os cristãos foram perseguidos e mortos nem tanto por sua crença, mais do que isto, por sua resistência em se enquadrar no estilo de vida do cidadão romano, fazendo com que fossem percebidos como inimigos do Estado Romano. Uma vez que os praticantes dos outros cultos se alinhavam à cidadania romana, não foram perseguidos e mortos na ocasião, somente os cristãos. A acusação de que os cristãos foram perseguidos pelos romanos por cauda de sua crença, e não por causa da desobediência civil, é uma dramatização dos historiadores cristãos, os quais também exageram muito nos números de perseguidos e de mortos, sobretudo o historiador eclesiástico Eusébio de Cesareia (século IV e.c.).

A oposição dos primeiros cristão de se enquadrarem na vida romana foi tão extrema que surgiu, naquela época, a paranoica prática do martírio. Cristãos que se ofereciam à morte ao invés de se submeterem ao estilo romano. A prática do martírio se tornou tão frequente que um governador romano chegou a reclamar, através de uma carta, da quantidade de cristãos que se ofereciam para serem martirizados na sua região. A prática do martírio, através do lançamento de cristãos aos leões para serem devorados, bem como da decapitação por gladiadores, que era para a população romana um espetáculo de entretenimento, contribuiu para aumentar a imagem dos cristãos como inimigos do Império diante dos cidadãos romanos.

Agora, para efeito de reflexão, é curioso comparar este radicalismo e intransigência comportamentais dos primeiros cristãos, acima resumidos, com o modo de vida da maioria dos cristãos atuais. Enquanto muitas pessoas, sobretudo os irreligiosos, consideram que os cristãos atuais são conservadores e retrógrados, a noção mudará a partir do conhecimento dos tempos passados, quando o Cristianismo não era apenas uma “aceitação de fé”, tal como é hoje, senão, mais precisamente, uma rigorosa combinação de modo de vida e de fé. Das grandes religiões tradicionais da atualidade, o Cristianismo é a com o maior número de seguidores perfeitamente acomodados à vida secular e civil. Diferente daqueles primeiros cristãos, que se ofereciam ao martírio por oposição ao ajustamento civil romano, os cristãos atuais, não só se ajustam, bem como também se deleitam com a mundanidade da vida civil dos países onde residem, isto faz com eles levem uma vida 99% secular e apenas 1% religiosa, por isso formam a religião mais numerosa do mundo. Atualmente, basta ter fé para ser considerado um cristão, o que não era assim na Antiguidade e na Idade Média, pois das grandes religiões tradicionais, os cristãos são os que mais se separam da combinação crença/modo de vida.

 Existem tantos cristãos que levam uma vida tão secularizada, tão exteriorizada, tão licenciosa, tão imitativa e tão influenciada pela mídia e pela moda que não se diferenciam em nada de um ateu, fazendo com que a mundanidade seja a regra de conduta. Só somos capazes de perceber sua religiosidade, se alguma, quando tocam no assunto da religião e então professam sua fé infundida em suas mentes persuadidas. Ou seja, um cristão atual só parece um cristão quando abre a boca para falar de religião, até mesmo quando fala de outro assunto não pode ser reconhecido, agora, quando está de boca fechada, um cristão atual é confundido com os maiores dos ateus, pois seus hábitos mundanos são idênticos. Portanto, para a maioria dos cristãos atuais, a religião é apenas um pronto socorro para os momentos de angustia e de apuro, quando eles não estão nestas situações, suas mentes se dirigem para tudo que é diferente do religioso, então a religiosidade é esquecida. Isto afasta os cristãos daquilo que é considerado como o mais sagrado na prática de todas as religiões deste os tempos mais antigos e representa a essência da religiosidade: o sacrifício, que etimologicamente significa sagrado ofício, mas não no sentido de imolação (matança de animais ou de pessoas em ritual), mas sim no sentido sublime de esforço abnegado. Neste último sentido, quando praticado com sinceridade, até mesmo um ateu poderá ser mais religioso que um cristão atual, pois um fato muito raro atualmente é encontrar um cristão disposto a fazer sacrifício (esforço abnegado), e quando o encontramos fazendo um esforço, é em troca ou em pagamento por uma graça ou por um favor (procissões, romarias, etc.), nunca um esforço abnegado (sacrifício). Os cristãos atuais, com sua contaminada mentalidade mundana, absorvem bem o negócio do “toma lá, dá cá”.

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