A Comicidade dos Milagres na Infância de Jesus

por Octavio da Cunha Botelho

Considerações iniciais

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Desenho reproduzindo o milagre do alongamento da tábua por Jesus e seu pai na carpintaria, um dos mais cômicos.

Muitos desconhecem e, por isso, se surpreenderão ao saber da existência de evangelhos sobre a infância de Jesus. Obviamente, não são textos canonizados, portanto foram abandonados ao esquecimento pelas correntes cristãs predominantes. Mesmo entre os textos apócrifos, não são os mais conhecidos e publicados, de modo que, o artigo abaixo será para muitos leitores uma surpreendente novidade. Ao mesmo tempo que surpreendem, estes textos nos divertem também, uma vez que estão repletos de relatos sobre milagres cômicos de Jesus na sua infância, muitos deles em momentos de travessuras. Enfim, os cristãos se surpreenderão, ou talvez os abominarão, enquanto que os laicos se divertirão com a comicidade. Sendo assim, este estudo é apropriado para o Dia das Crianças, já que a infância é a fase das travessuras.

A composição e a preservação de narrativas sobre a infância de líderes religiosos não são frequentes na cultura religiosa. Exceto nos apócrifos de Jesus, só iremos encontrar mais narrativas extensas sobre a infância de Sri Krishna no livro 10 do Bhagavata Purana. A diferença é que os textos sobre a infância de Jesus nunca foram canonizados, enquanto que os relatos sobre a infância de Sri Krishna, não foram apenas amplamente reconhecidos pelos hindus, como também foram reproduzidos em muitas artes e compostas muitas canções em louvor aos episódios desta fase da sua vida. Ou seja, a infância de Sri Krishna é reverentemente cultuada.

Os Evangelhos da Infância de Jesus

O número de evangelhos, nos primeiros anos do Cristianismo, era tão grande que os mesmos podiam até mesmo ser classificados em gêneros. Os historiadores não apresentam números coincidentes, mas estima-se que, pelo menos, cinquenta evangelhos eram existentes na época do Concílio de Nicéia (325 e.c.). Dentre os tantos gêneros, um deles é o gênero dos Evangelhos da Infância de Jesus. Estes nunca foram canonizados, por isso, com o tempo, caíram no esquecimento, bem como foram queimados pela Igreja na Idade Média. De modo que muitos hoje, cristãos ou ateus, nem sequer sabem que estes textos apócrifos existem. Em vista do número de manuscritos sobreviventes, estes textos devem ter gozado de certa popularidade nas regiões onde a perseguição ortodoxa era menor.

            Parece que a principal intenção com a composição dos Evangelhos da Infância foi mostrar o conhecimento precoce de Jesus de sua origem sobrenatural e de seu poder sobre a vida e a morte. Bem como, outro objetivo pode ter sido preencher a omissão sentida nos textos ortodoxos quanto às informações sobre a infância de Jesus. Exceto a passagem em Lucas 2:41-50, os Evangelhos Canônicos são quase que omissos sobre os primeiros anos da sua vida (Elliott, 1996: 19).

            O leitor cristão dos dias de hoje ficará chocado com estes relatos, enquanto que o cético se deleitará com a comicidade dos eventos, no entanto, deve-se levar em conta que os textos cristãos e o Cristianismo dos primeiros séculos eram muito diferentes do que temos atualmente, após muitos séculos de exclusiva leitura habitual dos textos canônicos. Assim, é preciso lembrar que, nos primeiros séculos, não existia uma uniformidade textual nos relatos evangélicos, diferentes igrejas utilizavam distintos textos, até que gradativamente se consolidou uma corrente predominante, vitoriosa nos primeiros concílios, que unificou os textos e homologou o cânone. Portanto a diversidade de relatos orais e de textos era enorme, daí que os cristãos daquela época não deviam se chocar com estas narrativas, que para nós hoje parecem cômicas.

            De fato, dentre os gêneros de evangelhos, os da infância são os mais risíveis. Algumas passagens até parecem episódios de filmes de comédia. Confesso que, quando li estes textos pela primeira vez, no início dos anos 1980, não consegui conter o riso, sobretudo no episódio do milagre do alongamento da tábua durante a confecção de uma cama, para socorrer José, pai de Jesus, um carpinteiro imprevidente.

             Os Evangelhos da Infância de Jesus sobreviventes são:

Evangelho da Infância por Tomé o Israelita (Platt Jr., 1926: 60s; Elliott, 1993: 68s; 1996: 20s e Ehrman, 2003; 57s)

Evangelho Árabe da Infância (Donaldson, 1885: 405s; Platt Jr., 1926: 38s; Elliott, 1993: 100s e 1996: 28s)

Livro da Infância do Salvador (Elliott, 1993: 108)

– Evangelho Armênio da Infância (Elliott, 1993: 118)

– Histórias Coptas da Infância (Elliott, 1993: 121)

            Muitos episódios se repetem nos evangelhos da infância, o Evangelho da Infância por Tomé parece ser o mais antigo, e os outros podem ter sido compostos a partir dele. O Evangelho Árabe da Infância é o mais extenso. Todos eles tratam da vida de Jesus dos cinco aos doze anos, terminando com o episódio de Jesus no templo, narrado em Lucas 2:41-50. O Evangelho da Infância por Tomé inicia a narrativa onde termina o Protoevangelho de Tiago, portanto pode ser considerado uma continuação.

Os milagres cruéis de Jesus

            Nos relatos destes evangelhos apócrifos da infância, Jesus também realiza alguns milagres cruéis, causando lesões corporais e assassinando crianças e adultos, por motivos fúteis. Veja em seguida alguns deles. No Evangelho da Infância de Jesus por Tomé o Israelita III 1-3, é relatado que Jesus, enquanto brincava, represou uma água. Um rapaz, vendo aquilo, desfez o que Jesus tinha feito. Jesus ficou irritado quando viu o que tinha acontecido e disse ao rapaz: “malvado, idiota irreverente, esta água represada lhe incomoda? Veja, agora você ficará seco como uma árvore, e você nunca terá folhas, ou raiz, ou frutos”. Imediatamente o rapaz ficou completamente seco (Elliott, 1993: 76; 1996: 20-1 e Ehrman, 2003: 58).

            Em seguida, neste mesmo evangelho, um episódio que é repetido no Evangelho Árabe da Infância, cap. XLVII, Jesus comete um assassinato por vingança, a partir de um motivo fútil, quando caminhava por uma aldeia e uma criança que corria lhe esbarrou no ombro. Jesus ficou irritado e disse a ela: “Você não prosseguirá em seu caminho”, e imediatamente a criança caiu e morreu (Donaldson, 1885: 414, Platt Jr. 1926: 57, Elliott, 1993: 76; 1996: 21 e Ehrman, 2003: 58). E a crueldade não acaba aqui, logo adiante, no capitulo V, depois desta ocorrência, os pais do rapaz assassinado foram reclamar para José, pai de Jesus. Este último advertiu Jesus, o qual lhe respondeu: “Bem sei que estas palavras não vêm de ti. Mas calarei em respeito a sua pessoa. Esses outros, ao contrário, receberão seu castigo”. E no mesmo instante, aqueles que o acusaram, ficaram cegos (Elliott, 1993: 76 e Ehrman, 2003: 58-9).

            E ainda mais, noutra passagem do Evangelho Árabe da Infância, cap. XLVI, Jesus estava brincando, num dia de Sabbath, com outras crianças na beira de um rio, onde tinham feito passarinhos de barro. Ao ver aquilo, o filho de um judeu, pois é proibido fazer tais coisas neste dia sagrado dos judeus, os advertiu e começou a destruir o que tinha sido feito. Quando Jesus estendeu as mãos em direção aos passarinhos de barro que tinha feito, estes saíram voando e cantando. Quando o filho do judeu se aproximou da poça, que Jesus tinha cavado, para destruí-la, ela secou e Jesus disse-lhe: “Vê como esta água secou, assim será com a sua vida”. E a criança secou (Donaldson, 1885: 414 e Platt Jr., 1926: 56-7). Este milagre é narrado no Evangelho da Infância por Tomé o Israelita, capítulo II, mas com a omissão do assassinato da criança que secou (Elliott, 1993: 75-6; 1996: 20 e Ehrman, 2003: 58).

            Estes milagres cruéis relatados acima, que não são todos nos Evangelhos da Infância, são muito diferentes dos milagres piedosos dos Evangelhos Canônicos. Porém, nem estes últimos textos ficaram absolutamente livres de um milagre cruel. Veja a maldição e o crime ecológico em Mateus 21:18-20 (também, Marcos 11:12-14 e 20-26), “De manhã, voltando à cidade, (Jesus) teve fome. Vendo uma figueira à beira do caminho, aproximou-se dela, mas não achou nada senão folhas, e disse-lhe: ‘Jamais nasça fruto de ti’. E imediatamente a figueira secou”.

A água de banho e as fraudas milagrosas de Jesus

            A água do banho de Jesus, enquanto bebê, segundo o Evangelho Árabe da Infância, era milagrosa e realizava curas, ela curou uma jovem leprosa (Platt Jr., 1926:43-4), um menino leproso filho da esposa de um príncipe (Platt Jr., 1926: 44-5), o feitiço de um jovem que foi transformado num mulo (Platt Jr., 1926: 45-6), duas crianças atacadas por uma peste em Belém (Platt Jr., 1925: 48) e outros milagres de cura (Platt Jr., 1926: 48s).

            Também, as fraudas de Jesus realizavam milagres e a morte de rivais. Numa passagem do Evangelho Árabe da Infância, a mãe de uma criança doente, que tinha uma mulher rival, pois seu marido era casado com duas esposas, recebe de presente as fraudas de Jesus, com as quais ela confecciona uma túnica para seu filho doente. Ao vesti-lo com esta nova roupa, ele foi curado e sua rival morreu no mesmo dia (Platt Jr., 1925: 48).

            Numa passagem mais adiante, uma jovem era atormentada por Satã, que lhe aparecia na forma de um dragão. A família vivia uma profunda tristeza. Sua mãe, ao saber das curas do menino Jesus, foi até Belém encontrar com Maria, a qual lhe deu um pouco de água do banho de Jesus, para derramá-la sobre o corpo da possuída. Em seguida, entregou-lhe as fraudas do menino Jesus. Então sua mãe retornou a sua cidade, e quando veio o tempo no qual Satã costuma atormentá-la na forma de um dragão, a jovem colocou sobre sua cabeça as fraudas e desdobrou-a, e de repente, delas saíram chamas que se dirigiam à cabeça e aos olhos do dragão. Com isso, Satã fugiu apavorado, abandonando a jovem e nunca mais apareceu (Platt Jr., 1926: 51-2).

Os milagres mais cômicos

            Em seguida, é apresentada uma seleção dos milagres mais hilários na infância de Jesus, extraída principalmente do Evangelho Árabe da Infância e do Evangelho da Infância por Tomé o Israelita.

Jesus fala no berço ainda bebê: Em ordem cronológica, o primeiro milagre de Jesus aconteceu quando tinha acabado de nascer, ainda bebê no berço, quando falou a sua mãe; “Eu, que nasci de ti, sou Jesus, o Filho de Deus, o Verbo, como te anunciou o anjo Gabriel, e meu Pai me enviou para a salvação do mundo” (Evangelho Árabe da Infância, cap. I; Donaldson, 1885: 405 e Platt Jr., 1926: 38). Este milagre é mencionado no Alcorão (XIX, 30-1), mas com uma fala diferente (Challita , 2002: 158).

Medida de tábua não era problema: O pai de Jesus era carpinteiro e costumava fazer arados e cangas. Ele recebeu um pedido de um homem rico para fazer uma cama. Mas, quando a medida de uma das vigas transversais ficou pequena demais, ele não soube o que fazer. O menino Jesus disse ao seu pai, “coloque as duas peças de madeira sobre o chão e as alinhe do meio para a extremidade”. José fez assim tal como a criança disse. Então, Jesus se colocou na outra extremidade, pegou a tábua mais curta e a esticou até alcançar o mesmo comprimento da outra (Evangelho da Infância por Tomé, cap. 13; Elliott, 1993: 78 e Ehrman, 2003: 60-1).

As estátuas de barro: Quando Jesus completou sete anos de idade, ele brincava um dia com outras crianças de sua idade. Para divertirem-se eles faziam com o barro imagens de animais, tais como lobos, asnos, pássaros, e cada um elogiava o seu próprio trabalho, esforçando-se para que fosse melhor do que os dos seus companheiros. Então Jesus disse para as outras crianças: ordenarei às estatuas de barro que fiz que andem e elas andarão. E então Jesus ordenou às imagens que andassem e elas imediatamente andaram. Quando ele mandava voltar, elas voltavam. Ele havia feito estátuas de pássaros que voavam quando ele ordenava que voassem e paravam quando ele dizia para parar, e quando ele lhes dava bebida e comida, eles bebiam e comiam (Evangelho Árabe da Infância; Platt Jr., 1926: 52-3).

Jesus, tintureiro adivinho: Certo dia, em que brincava e corria com outras crianças, Jesus passou em frente a uma loja de um tintureiro que se chamava Salém. Havia nesta loja tecidos que pertenciam a um grande número de habitantes da cidade, e que Salém se preparava para tingir de várias cores. Tendo Jesus entrado na loja, pegou todas as fazendas e jogou-as na caldeira. Salém ficou apavorado e disse: “Que fizeste tu, ó filho do Maria? Prejudicaste a mim e aos meus clientes”. Então, Jesus respondeu: “Qualquer fazenda que queira mudar a cor eu mudo”. E ele retirou as fazendas da caldeira, e cada uma estava tingida da cor que desejava o tintureiro (Evangelho Árabe da Infância; Platt Jr., 1926: 53).

A explosão da cobra: José enviou seu filho Tiago para recolher lenha e trazê-la para casa. Jesus o acompanhou. Enquanto Tiago estava recolhendo a lenha, uma cobra mordeu sua mão. Quando ele estava estirado no chão para morrer, Jesus apareceu e soprou o local da mordida. A dor passou imediatamente, a cobra explodiu e Tiago recuperou a saúde (Evangelho da Infância de Jesus por Tomé, cap. 16; Elliott, 1993: 79 e Ehrman, 2003: 61).

Jesus ressuscita um menino para inocentar-se: Jesus estava brincando num terraço de uma casa e uma das crianças, com quem brincava, caiu do terraço e morreu. Quando as outras crianças viram o que tinha acontecido, elas fugiram, de maneira que Jesus permaneceu lá sozinho. Quando os pais do menino que caiu chegaram, eles acusaram Jesus. Mas Jesus disse, “Eu não o empurrei”. Mas eles começaram a acusá-lo publicamente. Então, Jesus foi até o local do menino acidentado e com voz alta gritou, “Zenon (era o nome do menino) levanta-te e diga-me, eu empurrei você?” O menino imediatamente levantou-se e disse, “não, você não me empurrou, mas você me ressuscitou”. Quando os outros viram isto, eles ficaram impressionados (Evangelho da Infância por Tomé, cap. 09; Elliott, 1993: 78 e Ehrman, 2003: 60).

Milagre para compensar um descuido: Quando Jesus tenha seis anjos, sua mãe lhe entregou um jarro para que buscasse água para sua casa. Mas, ele tropeçou na multidão e o jarro quebrou. Então, Jesus abriu o mando que usava e o encheu de água, carregando a água até sua mãe (Evangelho da Infância por Tomé, cap. 11; Elliott, 1993: 78 e Ehrman, 2003: 60).

O imprevidente carpinteiro José é socorrido mais uma vez por Jesus: Um dia, o rei de Jerusalém mandou chamá-lo e disse; “Eu quero, José, que me faças um trono segundo as dimensões do lugar onde costumo sentar-me”. José obedeceu, e pondo mãos a obra, passou dois anos no palácio para construir o trono. E quando foi colocado no lugar, perceberam que de cada lado faltavam dois palmos a menos da medida fixada. Então o rei ficou bravo com José, que temendo a raiva do monarca, não conseguia comer e deitou-se em jejum. Então, Jesus perguntou-lhe qual era a causa do seu receio, e ele respondeu: “É que a obra que trabalhei durante dois anos está perdida”. E Jesus respondeu-lhe: “Não tenha medo e não perca a coragem, pega este lado do trono e eu do outro, para que possamos dar-lhe a medida exata”. E José tendo feito o que lhe havia pedido Jesus, e cada um puxando para um lado, o trono obedeceu e ficou exatamente com a dimensão desejada (Evangelho Árabe da Infância; Platt Jr., 1926: 53-4).

Obras consultadas

CHALLITA, Mansour. O Alcorão. Rio de Janeiro: ACIGI, 2002.

DONALDSON, James and Alexander Roberts (eds.). The Arabic Gospel of the Infancy of the Saviour em Early Church Fathers – Ante-Nicene Fathers, vol. VIII. Edinburg: T&T Clark, 1885, reprint Grand Rapids: Wm. B. Eerdman Publishing Company, p. 405-15.

EHRMAN, Bart D. Lost Scriptures: Books that did not make it into the New Testament. New York: Oxford University Press, 2003, 57-62.

ELLIOTT, J. K. The Apocryphal New Testament: A Collection of Apocryphal Christian Literature in an English Translation. Oxford: Clarendon Press, 1993, 46-122.

______________ The Apocryphal Jesus: Legends of the Early Church. New York/Oxford: Oxford University Press, 1996, p. 19-30.

JAMES, M. R. The Apocryphal New Testament. Oxford: Clarendon Press, 1924.

PLATT Jr., Rutherford H. The Lost Books of the Bible. New York: Alpha  House, 1926, p. 38-62.

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