O Florescimento da Laicidade Espontânea

Octavio da Cunha Botelho

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Antiga igreja transformada em livraria na Holanda, um dos países onde o secularismo mais cresce.

            A Era Contemporânea tem experimentado um crescimento do secularismo sem paralelo na história, de tal maneira que os povos antigos certamente não acreditariam que, um dia, tamanha laicidade florescesse. No passado, diferente de hoje, quando a população era educada para abraçar a religião, bem como, ao se desencantar ou desacreditar de uma tradição religiosa, a opção era sempre se converter para outra ou, quando um povo era invadido, o mesmo era forçado a aceitar a religião do dominante, de modo que a população nunca voltava as costas para a religiosidade. A opção laica era apenas a decisão de tão poucos indivíduos que nem sequer eram bem notados, em meio à grande maioria religiosa, e quando eram percebidos, os ateus eram discriminados e estigmatizados como cruéis e imorais.

O fenômeno acelerou, sobretudo, a partir do início do século XX, para enfim encontrar, no seu fim e no início do século XXI, algumas sociedades até ameaçadas de se tornarem totalmente seculares, em vista do crescente aumento de ateus nas últimas décadas. Porém, a peculiaridade desta recente modalidade de secularismo é seu caráter espontâneo. À medida que o século XX avançava e o mundo assistia a conversão de muitas nações ao Comunismo, ao ponto de se formarem grandes blocos, tais como a União Soviética e a Yugoslávia, as primeiras sociedades com ideologia ateísta na história, bem como as revoluções comunistas na China e em Cuba, os acontecimentos conduziam para o sentido de que o Comunismo dominaria o mundo e que a religião estaria com os dias contados, uma vez que, para os seus adeptos, “numa sociedade comunista, a religião não tem utilidade”. Alguns pensavam que o Comunismo substituiria a religião. Ou, como proclamavam alguns marxistas da época: “o comunismo é o verdadeiro cristianismo”. Até hoje ainda é possível encontrar autores que entendem que o Comunismo é uma forma de religião.

Por outro lado, os cristãos se horrorizavam com a expansão do Comunismo pelo mundo, bem como, ao mesmo tempo, lhe dirigiam ferozes críticas, prevendo trágicos desfechos para os seus objetivos e anunciando o seu fim. No desespero para conter a sua influência, os padres fizeram de tudo, até inventaram e alardearam os tais Três Segredos de Fátima, cujo segundo segredo profetizava o arrependimento da Rússia e seu futuro retorno ao Cristianismo. Estes segredos foram revelados durante as supostas aparições da Virgem Maria para três crianças (Lúcia, Francisco e Jacinta), nos arredores da cidade de Fátima, Portugal, em 1917. O terceiro segredo, o qual ficou guardado com Lúcia por muitos anos, só foi revelado no ano 2000, pelo papa João Paulo II e trata do problema do ateísmo no mundo. Bem, o Comunismo acabou e a Rússia se transformou em um país democrático com liberdade religiosa, até os Hare Krishnas se infiltraram lá. No entanto, após a queda, a população russa parece que não sentiu saudades do Cristianismo, pois recente pesquisa do Instituto Gallup revelou que apenas 33% dos russos consideram a religião importante em suas vidas. Enfim, a Rússia abandonou o Comunismo, mas não abraçou de volta o Cristianismo com tanto entusiasmo, ou seja, parece que muitos russos se sentiram bem com a ausência da fé cristã. Afinal, o segundo segredo de Fátima dizia que a Rússia iria se arrepender do Comunismo e se converter de volta ao Cristianismo, só que, até agora, a profecia não foi cabalmente cumprida.

O Comunismo desmoronou e os cristãos não se cansaram de apontar o seu fracasso como um exemplo de que “nenhuma sociedade sobrevive sem deus”, o qual se transformou até em um refrão, de tanto ser repetido. Até hoje é possível encontrar autores cristãos apontando o exemplo, da primeira tentativa fracassada na história da construção de uma sociedade laica, como uma lição, para que não seja repetida.

Agora, o curioso é que, simultâneo a esta vanglória dos cristãos com o fracasso comunista, emergia paralelamente, na mesma época do colapso, no final dos anos 1980, um novo formato de laicidade, que sobrevive e cresce até hoje, ou seja, o secularismo nos países de melhor qualidade de vida no mundo. De caráter inédito, esta é uma laicidade que não foi formada a partir de uma ideologia formal ou da imposição de um regime político, mas sim se caracteriza pelo ímpeto espontâneo da população. Diferente do Comunismo, quando o secularismo era imposto pelo regime e pela ideologia, isto é, de fora e de cima, e levado a cabo através da doutrinação comunista, a laicidade espontânea, por sua vez, é resultado do contentamento da população com a sua qualidade de vida, ou seja, parte de dentro do indivíduo e é opcional. Atualmente, ela está presente e cresce nas sociedades que estão no topo do ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (Suécia, Noruega, Dinamarca, Reino Unido, Austrália, Japão, Holanda, Canadá, etc.), daí o desinteresse natural pela religião.

Sendo assim, é curioso questionar porque os cristãos, que tanto se vangloriaram do fracasso comunista, com tantos discursos e escritos sobre o desmoronamento, bem como, antes disto, fizeram tantas previsões e alardearam a derrocada do ateísmo comunista, são agora tão silenciosos, em seus pronunciamentos, quanto a esta atual e florescente modalidade de laicidade: o secularismo dos países de melhor qualidade de vida. E quando, raramente tocam no assunto, tratam apenas do ateísmo em sociedades que ainda precisam da religião, aí fica fácil explicar a sua utilidade. Por exemplo, confirmadamente, a Noruega é o país que se manteve mais vezes no topo do IDH nos últimos anos, por isso é definida por alguns observadores como o “paraíso na Terra”, a sua porcentagem atual de pessoa que declaram que a religião não tem importância em suas vidas é de 78% e vem crescendo nas últimas décadas, ou seja, uma sociedade que sente que, cada vez mais, precisa menos da religião. Por que os religiosos não comentam sobre esta experiência? Assim, o atual quadro global que mostra o crescimento do secularismo nos países de melhor qualidade de vida e, em contrapartida, o crescimento da religião nos países de pior qualidade de vida é um assunto que não está prioritariamente na pauta dos religiosos. Pois, é embaraçoso discutir o fato de que, nestes países, onde a vida é tão boa e feliz, a religião, ao invés de ser um consolo e uma esperança de felicidade, ao contrário, é um estorvo cultural e social.

Então, será interessante refletir se esta florescente laicidade, nos países de maior desenvolvimento humano, é prova do fato de que, a partir do século passado, e mais acentuadamente no momento atual, o fator qualidade de vida será o termômetro que medirá a temperatura religiosa de uma sociedade, confirmando assim o fato de que a religião, na presença do alto desenvolvimento humano, é uma cultura viavelmente substituível. Em outras palavras, a religião não tem utilidade nas sociedades com alta qualidade de vida. Ademais, será que, mesmo com a piora na qualidade de vida de um ou alguns destes países que atualmente lideram o ranking, fato que poderá, no futuro, transformá-los em sociedades religiosas novamente, não fará que outros países se ergam, para então, se tornarem mais laicos, provando assim que não é o país, mas sim a qualidade de vida que determina o grau de religiosidade de uma nação. Enfim, o diagnóstico atual parece ser, quanto menos desenvolvimento humano, mais religião, quanto mais desenvolvimento humano, menos religião. Então, será que, finalmente, foi encontrada a causa da necessidade da religião? Interessante tema para se refletir.

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